Lia Justiniano dos Santos

Uma citação lida me impressionou profundamente. Ao mesmo tempo em que falava de esquecimento, falava da vida e do viver plenamente, ou do viver pleno.

“Desejo agora, deixar-me levar pela força de toda a vida realmente viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe. Em seguida vem outra em que se ensina o que se não sabe. Chega, talvez agora, a idade de uma outra experiência: aquela de desaprender, de fazer trabalhar as transformações imprevisíveis que o esquecimento impõem à sedimentação dos saberes, das culturas e das crenças por que se passou.”1

Esse o movimento pessoal que me levou à mediação. Desconstruir o que aprendi a fazer durante anos a fio, lidando com os conflitos trazidos pelos clientes, sem bem saber do que se tratavam os conflitos e que para os conflitos não é possível predizer a morte, mas buscar seus efeitos produtivos. Eu apenas buscava responder ao desejo manifestado de ganhar, de fazer valer o direito de quem representava como se fosse absoluto. Como se fosse possível solver o conflito, elimina-lo será? Desconsidera-lo, talvez.

Ao adentrar a fase da vida que nomeia Barthes, como sendo a do esquecimento, ousei parar e perguntar do que se tratava o que vinha fazendo, o que queria fazer…

E assim ousei deixar de lado o caminho tradicional trilhado por tantos anos. Esqueci o como fazer para abrir horizontes para um novo fazer, a prática da mediação de conflitos.

Depois de longos anos em que se buscou encontrar os caminhos que tornariam a mediação uma prática cotidiana, a fazer parte da normalidade dos meios de resolução dos conflitos, há na nossa sociedade uma abertura e mesmo uma expectativa crescente de ter na mediação um meio efetivo para prevenir e resolver os conflitos. Ao lado das iniciativas do Conselho Nacional de Justiça, temos hoje, no Congresso Nacional, dois recentes e importantes projetos de lei para institucionalizar a mediação de conflitos, um de iniciativa do Executivo focando especialmente a medição judicial e outro de iniciativa do Legislativo que trata da mediação privada ou extrajudicial.

O que traz de singular a mediação? É fundamental sua introdução entre as práticas de resolução de conflitos, por ser um agente transformador, por trazer um novo paradigma que através do discurso colaborativo, da busca do entendimento possível, do razoável, do enfoque no futuro, permite que a vida encontre novos caminhos, em consonância com o momento atual da humanidade.

Pode-se dizer que hoje vivemos a hora e a vez da mediação.


1 Citado do Rubem Alves, in Conversas sobre Educação – pag.96 – 7a. edição – Vênus Editora